
Saúde em Dia: conscientização contra a obesidade infantil
Uma em cada três crianças e adolescentes de 10 a 19 anos no Brasil têm excesso de peso. É o que mostra um levantamento nacional com base nos dados do Sistema Único de Saúde (SUS) no país.
A situação é alarmante, segundo especialistas ouvidos pelo g1; eles afirmam que excesso de peso nos anos iniciais da vida adulta pode aumentar o risco de doenças cardíacas, diabetes e Acidente Vascular Cerebral (AVC) – algumas das principais causas de mortes no país.
O filho de Darlan Wagner, um comerciante no Pará, é parte dessas estatísticas. O adolescente desenvolveu compulsão alimentar e chegou a pesar mais de 100 kg aos 13 anos. No ano passado, pediu aos pais como presente de aniversário a cirurgia bariátrica.
“Eu vi meu filho desaparecendo. Aquela criança que brincava, que saía de casa, não existia mais. Tentamos ajudar, mas, quando percebemos, ele já escondia comida no quarto, comia escondido e tinha doenças de adulto, como colesterol alto e diabetes”, explica Darlan.
“Eu vi meu filho desaparecendo, diz o comerciante Darlan Wagner.
Arquivo Pessoal
A obesidade nessa faixa etária já é reconhecida por instituições de saúde como um desafio global. No Brasil, neste ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) mudou as regras para a bariátrica e passou a permitir que adolescentes de 14 anos passassem pelo procedimento. Médicos ouvidos pelo g1 acreditam que a medida atende a uma demanda já existente. Há fila de espera pela cirurgia entre menores.
📈O drama se reflete no levantamento nacional que mostra que o sobrepeso entre crianças e adolescentes subiu quase 9% em dez anos, entre 2014 e 2024. A pesquisa analisou o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), mantido pelo Ministério da Saúde via organização ImpulsoGov.
📊 Segundo os dados, são 2,6 milhões de crianças e adolescentes nessa faixa de idade com algum tipo de sobrepeso.
Sobrepeso: 1.542.975
Obesidade: 840.808
Obesidade grave: 237.228
🧑⚕️Especialista em saúde pública que participou da pesquisa, Fernanda Soares diz que o quadro retrata um cenário preocupante que afeta a próxima geração de adultos no país.
“O Brasil enfrenta hoje um quadro preocupante e crescente de excesso de peso entre crianças e adolescentes. (…) Esse cenário reflete mudanças importantes nos hábitos alimentares, sedentarismo e também desigualdades regionais. A dimensão do problema, além de relacionar-se diretamente com a saúde pública, também é econômica e social: sobrecarrega o sistema de saúde, aumenta custos futuros com doenças crônicas e compromete a qualidade de vida dessa população”, explica.
O raio-x do Brasil
Os dados revelam um problema presente de Norte a Sul do país. Apesar disso, há regiões mais afetadas que outras.
A região Sul é a que teve a maior porcentagem –com 37% das crianças e adolescentes dentro do grupo de idade com algum tipo de sobrepeso em 2024.
A região Norte é a que tem o menor índice, com 27% da população entre 10 e 19 anos com algum tipo de sobrepeso.
Quando analisados os estados, as maiores altas aconteceram no Ceará, onde o número de crianças e adolescentes com sobrepeso aumentou 12%; depois, vem Rondônia, com alta de 11%, e Rio Grande do Norte com 10%.
O único estado em que não houve aumento foi Roraima, que reduziu 1% o índice em comparação com 2014.
arte g1
Entre as capitais, o maior índice está em São Paulo, que tem mais de 76 mil jovens em condição de sobrepeso —seguida por Rio de Janeiro, com 64 mil e Manaus, com 43 mil.
Veja a lista de capitais:
Sobrepeso em crianças e adolescentes por capitais
Por que isso está acontecendo?
🍪 A pesquisa mostra que a alta é motivada pelo alto consumo de ultraprocessados, de bebidas adoçadas e embutidos –alimentos assinalados como parte importante da dieta pela maioria daqueles que foram identificados com sobrepeso.
🍝 Entre os alimentos citados estão macarrão instantâneo, biscoito recheado e salgadinho.
A médica endocrinologista Maria Fernanda Barca, membro da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), explica que a alimentação das crianças e adolescentes é um reflexo dos maus hábitos dos adultos.
“A gente tem mais oferta de ultraprocessados. Os alimentos ultra calóricos estão super acessíveis para as crianças e adolescentes em casa. O reflexo disso é uma infância e adolescência com sobrepeso”, explica.
📱A médica ainda reforça que essa mudança de hábito veio associada a uma vida mais sedentária – o que também é mostrado na pesquisa. Os índices apontam que, entre as crianças e adolescentes com sobrepeso, a maioria passa tempo considerável em frente às telas e se alimentam diante delas.
“As crianças e adolescentes têm uma alimentação de pior qualidade e somado a isso estão mais sedentárias. Isso se reflete na pesquisa quando olhamos os índices nas grandes cidades, por exemplo, em que se caminha menos. A soma desses fatores cria esse cenário no país”, explica.
Qual o risco disso para o futuro?
Fernanda Soares, especialista em saúde pública que participou da pesquisa pela ImpulsoGov, explica que o sobrepeso nessa idade pode causar uma série de problemas na vida adulta.
“O excesso de peso na infância e adolescência traz riscos imediatos e de longo prazo, com impactos diretos tanto para a saúde individual quanto coletiva. Do ponto de vista clínico, aumenta a probabilidade de desenvolver precocemente doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemias e doenças cardiovasculares, além de complicações respiratórias e distúrbios do sono”, explica.
Além disso, a especialista reforça que essa alta precisa ter a atenção das autoridades, uma vez que pode pressionar os sistemas públicos de saúde no futuro.
A endocrinologista Maria Fernanda Barca endossa a urgência de mudança, que inclui políticas públicas que combatam esse cenário.
“A obesidade está ligada às doenças que mais matam. Estamos vendo essas doenças aparecerem cada vez mais cedo e isso é grave para a geração futura, para o que vamos ter de futuro no país e até mesmo para o nosso sistema de saúde”, explica.
Bariátrica ainda na adolescência
Darlan Wagner, comerciante de Santa Maria do Pará, relembra que os primeiros sinais de que havia algo errado com o filho foram silenciosos. O menino passava horas em frente à televisão ou ao celular, sempre comendo. O hábito parecia inofensivo, mas abriu espaço para que a alimentação se tornasse cada vez mais descontrolada.
Segundo ele, o jovem não tinha mais controle do que comia, já que estava sempre distraído. Enquanto os pais estavam ocupados com o dia a dia, não percebiam o que acontecia.
“Quando nos demos por nós, vimos que ele estava ganhando muito peso muito rapidamente. A culpa disso foi nossa, a culpa é de nós, pais, que permitimos que isso aconteça. Parece normal e inofensivo, mas abriu espaço para que o meu filho, uma criança, desenvolvesse compulsão e chegasse a uma situação em que não se reconhecia mais”, explica.
Aos 11 anos, o menino já tinha obesidade. Dois anos depois, a situação se agravou: ele não queria mais aparecer em fotos, evitava sair de casa, já não tinha mais interesse pela escola e começou a se isolar.
Darlan afirma que a mãe e ele tentaram intervir ajustando a alimentação do filho, mas descobriram que o problema era maior: ele escondia comida no quarto, comia escondido à noite e o caso era já de compulsão alimentar.
Aos 13 anos, ele pesava mais de 100 kg, tinha colesterol alto e enfrentava limitações físicas, diabetes e outras doenças.
“Nós tentamos, mas não conseguimos sozinhos. Foi um processo, até que ele me pediu de presente de aniversário a cirurgia bariátrica. Aquilo me despedaçou por dentro. Mas enfrentamos isso juntos e conseguimos devolver a ele qualidade de vida”, explica.
Hoje, o menino passa por acompanhamento médico, psicológico e nutricional.
A médica endocrinologista Maria Fernanda Barca, que atende crianças em seu consultório, explica que, para evitar cenários como esse, é necessário envolver um tratamento multidisciplinar que inclua os pais.
“É preciso que os pais repensem a alimentação da casa e que eles evitem esses cenários que podem acabar levando as crianças a um quadro de obesidade. Que eles estimulem a atividade física e que olhem esse ponto como essencial quando falamos na saúde das nossas crianças”, diz.
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