
Paraense desaparece, e caso é investigado pela PF.
As condições de vida da brasileira repatriada Karina Ailyn Raiol Barbosa eram precárias no campo de refugiados no norte da Síria. Segundo a Defensoria Pública da União (DPU), que acompanhou o retorno da jovem ao Brasil, Karina passou fome e chegou a ficar em uma espécie de solitária, separada do filho de sete anos.
Em alguns momentos a família perdeu o contato com ela porque ela estava numa solitária. […] Então, nessa situação, a família ficava muito assustada, porque perdia o contato por um período muito grande, não conseguia falar com ela
O defensor regional de Direitos Humanos no Pará, Marcos Teixeira, afirmou em entrevista ao g1 que a DPU ingressou com a ação na Justiça em 2020, pedindo que o governo brasileiro tomasse todas as providências para repatriar Karina e seu filho.
A paraense tinha 20 anos quando saiu do Brasil no dia 5 de abril de 2016, sem avisar aos pais. Na época, a Polícia Federal informou que a jovem embarcou em São Paulo em um voo com escalas no Marrocos e em Istambul.
Privação de liberdade
O defensor Marcos Teixeira diz que a família da jovem, que morava na Grande Belém, procurou a DPU em 2019, informando que Karina já tinha interesse em retornar ao Brasil.
A paraense Karina Barbosa desapareceu em 2016 e esteve detida em região de conflito na Síria.
Reprodução / TV Liberal
Um ano antes, em 2018, o Ministério das Relações Exteriores havia confirmado que a paraense esteve detida em uma área controlada pelos curdos na Síria.
Marcos Teixeira afirma que Karina já havia tentado fugir do campo de refugiados algumas vezes e tinha sido recapturada em outras ocasiões, o que fez com que ela se tornasse uma “pessoa vigiada lá dentro”.
Ela era uma pessoa vigiada lá dentro. O campo de concentração, se não me engano, tem 40 a 45 mil pessoas. Ela tinha uma vigilância um pouco maior por conta de já ter tentado fugir em algumas oportunidades
O defensor afirma que a jovem conseguia manter contato com a família e com a DPU e, nessas ocasiões, narrava as dificuldades que estava passando junto com o filho.
“Recentemente ela narrava que o filho estava doente, que ela estava passando fome. Isso infelizmente é muito comum nesses campos de refugiados”, diz.
Incerteza sobre repatriação
Nos pedidos feitos ainda em 2020, a DPU solicitou à Justiça a imediata atuação do Estado brasileiro no processo de repatriação da jovem. Porém, as solicitações foram negadas.
Defensor regional de Direitos Humanos no Pará, Marcos Teixeira, é quem é responsável pelo caso da paraense.
Marcus Passos/g1 Pará
Marcos Teixeira diz que Karina perguntava sobre quando seria repatriada, ao ver pessoas de outras nacionalidades que estavam no campo de refugiados sendo levadas de volta aos seus países.
Porém, na explicação do defensor, o caso envolvendo Karina Ailyn não era tão simples, já que os curdos, que controlavam o acampamento de refugiados, “não são reconhecidos pelo Estado brasileiro”.
“Tem uma questão internacional ali envolvida. Os curdos não são reconhecidos pelo Estado brasileiro. Então, quando você negocia diretamente com o grupo separatista, você de certa forma reconhece aquele grupo.”
Para o defensor, a dinâmica do caso de Karina Ailyn é diferente do que ocorreu com a repatriação de Juliana Marins, que caiu em um penhasco na Indonésia. Nesta situação, Indonésia e Brasil são Estados que se reconhecem internacionalmente.
Karina e o filho foram recebidos nesta última quarta-feira (27) no aeroporto internacional de Guarulhos pela defensora pública Ana Claudia de Carvalho Tirelli e por um agente da PF.
Envolvimento com terrorismo
Marcos Teixeira diz que não existem provas ou informações de que ela se associou ao Estado Islâmico, tampouco que ela vinha praticando alguma espécie de crime.
“Ela ficou anos nesse campo de concentração sem nenhuma ação do Estado Islâmico para resgatá-la. Ou seja, não tem envolvimento nenhum. E se, eventualmente, em algum momento, houve essa aproximação, atualmente não existe mais”, afirma.
DPU relata vida de brasileira repatriada após viver em campo de refugiados na Síria
O defensor regional de Direitos Humanos no Pará comenta ainda que não existe, no Brasil, nenhum processo criminal que investigue Karina Ailyn por alguma conduta ilegal.
Marcos aponta a existência de “muito preconceito” no caso, afirmando que “você já parte do pressuposto de que só porque a pessoa professa uma religião islâmica ela seria terrorista, o que obviamente não é verdade”.
O representante da DPU/PA destaca ainda que a Karina Ailyn Raiol Barbosa que a família recebeu 9 anos depois não é a mesma que foi embora em 2016.
“Acredito que ela precisa agora desse acompanhamento e quem é melhor do que a família para dar esse acompanhamento?”
Desaparecimento
Segundo a família, Karina era uma jovem tímida e caseira. Reclusa, ela não tinha muitos amigos e só costumava sair para ir à Universidade Federal do Pará (UFPA), onde cursava jornalismo.
Em 2014, ela iniciou um curso de árabe na instituição. Em seguida, passou a frequentar uma mesquita na capital. Em abril de 2015, a jovem se converteu ao islamismo.
“Karina começou a usar só roupa de manga longa e saia por cima da calça e sempre estava de véu. Ela até ficou mais comunicativa, conversava mais com a gente. Minha mãe algumas vezes acompanhou Karina até a mesquita”, disse a irmã da paraense, Karen Barbosa. Os familiares não eram muçulmanos e praticavam outra religião.
De acordo com a família, Karina saiu de casa às 10h do dia quatro de abril de 2016, apenas com um casaco fino e uma sandália. O último contato com a jovem foi às 13h daquele dia.
Os parentes relataram que a estudante viajou sem levar mala. No outro dia, os familiares foram até a UFPA e souberam que Karina não frequentava o curso há meses.
Um mês após desaparecer de Belém, Karina fez contato rápido com a família. Os pais da estudante de jornalismo contaram que foram surpreendidos com a ligação da jovem.
“Nesse contato, ela estava muito nervosa. Aí eu disse: ‘Filha, onde você está?’. Ela me disse ‘Pai, eu não posso dizer isso senão eu vou ter problemas’. O que eu percebi nela foi muito medo e aquilo apavorou a gente”, revelou o pai, Nerino de Almeida Barbosa, na época.
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