
Afonso raspa os cabelos ao descobrir diagnóstico de leucemia mieloide.
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Na novela “Vale Tudo”, Afonso Roitman (Humberto Carrão) descobre que tem leucemia mieloide, um tipo de câncer de sangue. A revelação não detalha se a doença é aguda ou crônica, mas, fora da ficção, essa informação faz toda a diferença no tratamento e no prognóstico da condição.
A leucemia é um câncer que nasce na medula óssea, tecido gelatinoso dentro dos ossos responsável pela produção das células sanguíneas. Quando ocorre uma mutação, as células doentes passam a se multiplicar de forma desordenada e substituem as saudáveis.
“As leucemias agudas são emergências clínicas porque se reproduzem de forma abrupta e exigem tratamento agressivo imediato. Já as crônicas, mais frequentes em pessoas mais velhas, permitem um manejo mais tranquilo com os tratamentos que temos hoje”, explica Breno Gusmão, onco-hematologista da Beneficência Portuguesa de São Paulo e integrante do Comitê Médico da Abrale.
Tipos de leucemia: aguda x crônica, mieloide x linfoide
O g1 ouviu quatro médicos especialistas na doença. À reportagem, eles dividem as leucemias em dois grandes grupos: agudas e crônicas. E cada uma delas pode ser do tipo mieloide ou linfoide.
Agudas: evoluem rapidamente, a partir de células jovens (blastos). Exigem diagnóstico e tratamento imediatos, pois podem se agravar em semanas.
Crônicas: se desenvolvem de forma mais lenta, a partir de células maduras. Muitas vezes são descobertas em exames de rotina e permitem controle prolongado com medicamentos.
“A leucemia mieloide aguda é uma forma agressiva, que compromete a defesa do corpo e exige quimioterapia, imunoterapia ou até transplante de medula. Já a leucemia mieloide crônica evolui de forma mais lenta e, hoje, é tratada de forma eficaz com inibidores de tirosina quinase, sem necessidade de transplante na maioria dos casos”, explica Thiago Kaique, oncologista na Rede Mater Dei de Saúde.
Além disso, existe a diferença entre mieloide e linfoide:
Mieloide: afeta células precursoras que dariam origem a glóbulos vermelhos, plaquetas e a alguns tipos de glóbulos brancos. É o tipo diagnosticado em Afonso.
Linfoide: atinge os linfócitos, células específicas de defesa do sistema imunológico.
“Essa classificação é fundamental para definir o tratamento e o prognóstico. As leucemias linfoides e mieloides têm características próprias, que mudam a forma de tratar e o risco de recidiva”, detalha Joana Koury, médica hematologista e membro do Comitê de Leucemias Agudas da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH).
Sintomas
Na novela, Afonso apresenta cansaço, palidez e sangramentos pelo nariz. Esses sinais são descritos por médicos como característicos da leucemia, que também pode causar hematomas espontâneos, febre persistente e infecções recorrentes.
“Pequenos sangramentos, como no nariz ou na gengiva, além de infecções repetidas, são sintomas de alerta que levam o paciente a procurar ajuda médica. A medula doente deixa de produzir plaquetas e células de defesa, o que aumenta sangramentos e infecções”, explica Joana Koury (ABHH).
Outros sintomas incluem perda de peso, dores ósseas e sudorese noturna. Na forma aguda, eles surgem de maneira repentina; já na crônica, podem passar despercebidos por meses.
Queda de cabelo é um dos principais efeitos da quimioterapia, um dos tratamentos disponíveis para leucemia.
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Diagnóstico
O hemograma (exame de sangue) é geralmente o primeiro exame a apontar alterações, mostrando a presença de células jovens anormais. Para confirmar e definir o subtipo, é necessário o mielograma, que analisa a medula óssea, além de testes genéticos que identificam mutações.
“O cariótipo e outros exames moleculares ajudam a prever se o paciente vai responder bem à quimioterapia ou se há maior risco de recidiva. Isso não apenas define o subtipo, mas também direciona o tratamento”, reforça Joana Koury.
Tratamento
O tratamento da leucemia depende do tipo e das condições do paciente. Entre as opções estão:
Quimioterapia padrão: ainda é a base do tratamento da maioria dos casos de leucemia. Consiste em medicamentos que destroem as células doentes e impedem sua multiplicação. Pode causar efeitos colaterais importantes, mas é fundamental para levar o paciente à remissão.
Terapias-alvo: atuam em mutações genéticas específicas que impulsionam a doença. Por serem direcionadas, tendem a causar menos efeitos colaterais que a quimioterapia convencional e aumentam a chance de resposta em determinados perfis de pacientes.
Imunoterapia e células CAR-T e CAR-NK: estimulam o próprio sistema imunológico a reconhecer e combater as células da leucemia. As chamadas terapias celulares — como CAR-T e CAR-NK — estão em estudo para leucemias mieloides e representam uma das maiores promessas da área.
Inibidores de tirosina quinase (ITKs): são medicamentos orais usados principalmente na leucemia mieloide crônica (LMC). Eles bloqueiam uma proteína que funciona como “motor” da doença, permitindo que muitos pacientes tenham qualidade de vida sem necessidade de transplante.
“Nos últimos anos, tivemos avanços importantes, que permitem estratégias personalizadas. Em pacientes jovens com determinadas mutações, as chances de cura podem ser muito maiores”, afirma Sabrina Brant, onco-hematologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília.
O transplante de medula óssea
Para alguns pacientes, o tratamento inclui o transplante de medula óssea, um tecido esponjoso que fica dentro dos ossos — especialmente no quadril, esterno e costelas — e funciona como a “fábrica do sangue”. A medula óssea produz glóbulos vermelhos (que transportam oxigênio), glóbulos brancos (que defendem contra infecções) e plaquetas (que evitam sangramentos).
No transplante, o processo envolve destruir a medula doente com quimioterapia ou radioterapia e substituí-la por células-tronco de um doador compatível.
“Mesmo com doadores 100% compatíveis, há risco de rejeição. Por isso, o paciente precisa de imunossupressores por meses. É um equilíbrio delicado entre evitar rejeição e não deixar o organismo vulnerável a infecções”, explica Breno Gusmão.
A chance de encontrar um doador ideal na família é de apenas 25% entre irmãos. Por isso, o cadastro de doadores voluntários, feito em hemocentros de todo o país, é essencial para ampliar as possibilidades de tratamento.
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